Como abrir um restaurante na Baixa

ARROZ DE PATO, BACALHAU COM NATAS, RESTAURANTE
Imagem gerada com recurso a IA (DALL-E2)

Como abrir uma espécie de “restaurante” na baixa: 1º Há que cultivar uma barba bem cuidada, daquelas em que se perde metade da manhã a desemaranhar e convém não descurar um bigode à D. Carlos I (moldar e retorcer as pontas com ajuda de cera que podes adquirir numa das muitas barbearias que abrem como cogumelos por aí); 2º Compra alguns pares de calças uns números abaixo, daquelas que apesar de parecerem ter sido talhadas para uma criança de 11 anos, cobrem frugalmente as pernas do bípede implume adulto (é um sacrifício necessário para montagem do grande quadro no qual tu és o protagonista); 3º) Desenrasca um espaço qualquer, independentemente das regras de higiene e do mais básico bom senso e preenche cada cm2 disponível com uma catrefada de lixo ao qual chamarás “velharias” ou até mesmo – e porque não? – “antiguidades”. Aqui vale tudo: desde das mesas e cadeiras (que devem ser desencontradas e de cada nação), passando pela própria louça de serviço (quanto mais desencontrada e lascada, mais encantadora) e acabando na própria “comida” que servirás das formas o mais extravagantes e inconvenientes para incómodo dos comensais e a qual, nunca, mas mesmo nunca deverá ser fresca e feita no momento (mas aqui, se calhar, estou a baralhar categorias e a misturar decoração com gastronomia, mas não te preocupes porque vai dar tudo ao mesmo, não é?); 4º) Completa o quadro com umas velas. Velas nunca são demais. Se a sala cheirar a mofo, bafio ou até mesmo a urina, não faz mal. Acende mais velas. É assim mesmo que se cria uma “experiência”. Ventilação e exaustão é para os fracos; 5º) Este é o teu reino. Nele vais brilhar. Fala, fala muito, mesmo que não faças a mais pálida ideia do que falas. Ou sobretudo por isso mesmo. Fala do vinho, dos enchidos, de trás-os-montes e do alentejo, de tudo e mais alguma coisa e sobretudo por cima dos pratos e junto ao pescoço dos clientes. Há que intimidá-los subtilmente. Há que vencê-los pelo cansaço. Tens perguntar pelo menos 30 vezes e com os olhos a brilhar de comoção se está tudo bem e se estão a gostar. O que importa é distrair os manducantes e impedir que eles caiam em si. Enquanto engolem à pressa para responder qualquer coisa, ficam sem tempo para saborear. Dança como uma mosca de mesa em mesa; 6º) Contrata (na verdade, não contrates porque isso de contratos de trabalho é uma chatice e só serve para encher os bolsos do Estado) pessoal que seja o mais incompetente e untuoso possível. Ensina-lhes as regras básicas do negócio (portugueses é para despachar, camones é para marinar) e as palavras proibidas (“factura” e “multibanco”, por exemplo); 7º) A “ementa” deve ser escrita em papel craft e cada item deve ser copiosamente descrito por mais banal seja o “prato” (não vou dar exemplos, à boa maneira escolástica acredito que enunciar o pecado é, de certa forma, prolongá-lo e ampliá-lo através do verbo). Não ponhas preços. Fica mal; 8º) Cozinha é opcional. Se tiver mesmo de ser, contrata (isto é… tu sabes…) um gajo qualquer para andar de um lado para o outro aos berros e chama-lhe “chef” Faz parte desse grande quadro que preparaste para os teus clientes; 9º) Certifica-te que o “restaurante” fica perto do Pingo Doce (Mini Preço é esticar a corda) para teres os melhores enlatados sempre frescos. A saladinha de feijão frade com atum faz a delícia dos camones porque eles não têm disso por lá de onde vêm. Escolhe pratos que possas congelar como o bacalhau com natas, que é sucesso garantido entre a estrangeirada, ou que possas comprar no próprio Pingo Doce, como o arroz de pato ao qual chamarás “Arroz de Pato da Avó” (muita atenção na escolha da localização porque nem todos os Pingos Doces servem comida confeccionada); 10º) Com os vinhos a liberdade é total. Compra qualquer coisa por €1.50 chama-lhe “Vinho da Semana” a €15. Enche-te de coragem e diz barbaridades como «os vinhos do douro têm uma acidez muito forte» ou «os vinhos do Dão são mais macios», tudo é permitido. Junta palavras aleatórias sobre os vinhos com a convicção de um São Paulo acabado de se converter; 11º) Se algum cliente questionar a qualidade da comida e do vinho, resolve a situação sem desmanchar a charada, não vale a pena estragar a experiência: a) Diz que a salada de feijão frade tem recebido muito elogios de todos os estrangeiros e que tem tido muita saída; b) Diz que o arroz de pato é caseiro e que até conhecias o pato desde de pequenino; c) Diz que o vinho está a ser vendido a metade do preço porque veio directamente do produtor e que não se encontra à venda nas grandes superfícies e que aquele gosto avinagrado que se sente na boca é porque aquele vinho é natural e não tem aditivos como esses a que estamos habituados a beber e que nos têm envenenado a todos aos poucos (momento para fazer um cara muito séria, abanar a cabeça e virar as costas à mesa); d) Diz que vem tudo directamente de Trás-os Montes. Não interessa de onde ao certo, de Trás-os-Montes basta. Se te deparares com um transmontano, diz que vem tudo do alentejo e por aí fora; e) Evita a mesa. Ignora os clientes. Eventualmente irão se fartar e vagar a mesa para um turista; 12º) Se o “restaurante” falir abre uma barbearia com cornos de veado de plástico na paredes. Ou uma gelataria. Ainda há poucas gelatarias na Baixa. Ou melhor ainda: abre uma gelataria onde se possa fazer a barba.

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