Março, mês do choco

CHOCO

Março é mês do choco. Comprei um tamanho “jumbo” no mercado da Barra. Sem saber ao certo que tratamento haveria de dar ao bicho, optei por fazer um gin tónico (sem paneleirices: Bombay Sapphire, Schweppes, gelo, rodela de lima e umas gotas de limão) e pôr Sonic Youth a rodar (estamina e abstração q.b. para meditar). Ao terceiro gin chegámos a um acordo. Nem frito, nem feijoada: no forno em tacho de ferro. Aconteceu qualquer coisa que transcende o entendimento humano e do próprio cefalópode. Não vou dizer que vi Deus, mas sem dúvida que Deus me terá visto e que teve inveja do que viu. É daquelas receitas que são irrepetíveis, com muito de imprevisto e improviso. Aconteceu tudo muito rápido e muito lento, ao mesmo tempo, consoante a maior ou menor influência dos Sonic Youth ou do Bombay Sapphire. Então, é assim:

Fotografia: david afonso

O que importa é equilibrar a maresia do choco com acidez de uma horta sob a orvalhada do atlântico e um toque de doce e picante. Nada mais fácil: Pegam no tacho de ferro fundido e atiram lá para dentro: cebola nova cortada grosseiramente, meia dúzia de dentes de alho esmagados dentro da própria camisa, 4 malaguetas secas inteiras (assim controlam melhor o efeito do picante), umas folhas de louro porque não há outra maneira de se fazer a coisa, uma tira de coiro do presunto para dar sabor e unto, tomilho e salsa frescos. Regar com azeite (qualquer um serve desde que seja azeite). Puxar bem ao lume e quando a cebola começar a dar de si, juntar umas senhoras rodelas de cenoura (não a cortem fina senão fica uma cagada), tomate cereja (com rama e tudo, sapere aude!). Deixem moer um pouco mais. Juntar pimento açoriano triturado é essencial pelo sabor, consistência e por nos desobrigar (creio que foi o terá sido o Passos Coelho a vulgarizar este maravilhoso verbo no nosso léxico) de deitar sal. Os açorianos esticam-se no sal nestas massas de pimento. Direita, esquerda. Volver! Juntar tomate seco e pasta de concentrado de tomate, daquela em bisnaga (evitem a todo o custo a da marca Guloso porque o Ortigão Costa é um dos principais financiadores do Chega e ninguém vai querer dessa merda no prato). Aqui será conveniente uma pausa explicativa: é fundamental construir o prato com vários layers de tomate. Em primeiro lugar, nunca é demais ter tomates a mais. Em segundo lugar, cada uma destas encarnações do tomate tem uma missão em específico: a) o tomate cereja confere a frescura e acidez; b) o tomate seco aquela sugestão terrosa que faz lembrar as tardes de agosto; c) o tomate concentrado, a doçura e o perfume de uma arroz de tomate que me fez companhia em muitos almoços da minha infância. Neste momento, o tacho já está quente demais, mas não se preocupem, escutem apenas as sempre úteis recomendações da Kim Gordon: «It’s four-alarm girl, nothing to see» (Incinerate) e tratem de usar a colher de pau. É chegada a hora do convidado especial entrar em cena: deitem com carinho e respeito o choco cortado em tiras sobre esta cama. Aconcheguem-no até sentirem que já é demais. O choco é nosso amigo. Por isso, ofereçam-lhe um copo de vinho branco. Acelerem o lume e atirem lá para dentro umas alcaparras. Por nenhum motivo em especial, mas apenas porque estão ali na hora errada no sítio certo e porque gostas de alcaparras (como não?!). A acidez também poderá ser útil. Moer umas amostras de pimenta preta e deixar cair inadvertidamente uns grãos de mostarda. Hora de tapar o animal e levar o tacho ao forno. No máximo. Lembrem-se: Incinerate!. Meia hora deve dar. A meio do processo, só precisam de voltar a mexer tudo para que tudo volte a ficar na mesma e atirar lá para dentro um shot de whisky (lembrem-se: o choco é nosso amigo e merece tudo!). Enquanto o forno faz a magia dele, aproveitem para abrir o vinho (eu optei pelo Singellus Avesso Branco) e comer umas azeitonas verdes. É preciso preparar o palato para o que aí vem. É uma total falta de respeito transitar diretamente do gin para o prato. O vinho ajuda a arrumar a casa e a prepará-la para receber as visitas. Nos entretantos, preparem os acompanhamentos: batata doce roxa assada no micro-ondas que, uma vez aberta, deverá ser barrada, com carinho, com manteiga, mas sem exagero! Sigam o vosso instinto, mais ou menos como barraram, com precisão amorosa, o amor da nossa vida com protector solar, naquelas inesquecíveis tardes de verão. Não se esqueçam de três gotas de limão, fazem toda a diferença! Como em tudo na vida, de resto. Façam também uma daquelas saladas mistas de pacote, sem história. Não é preciso mais do que isso desde que o vinagre seja bom. Mesmo antes de abrir o tacho, piquem: coentros frescos, rama de cebola nova (há gente ignorante, que não merece o oxigénio que consome, que continua a pôr fora esta dádiva dos deuses) e alface do mar (ah pois é!). Esta mistura verde deve ser gentilmente envolvida no choco e na sua molhanga mesmo antes de servir para lhe dar aquela frescura de horta à beira da ria. O resultado é qualquer coisa de extraordinário. Sabem aquela coisa de quando morremos (bom, isto dito assim…) vemos toda a nossa vida a correr à frente dos nossos olhos? É isso mesmo! Mas em bom! Isto é, vemos a nossa vida tal como ela deveria ter sido. Deus viu que era bom e teve inveja. Pelo que, se é verdade que morrem cedo aqueles a quem os deuses amam, depois disto arrisco-me à imortalidade.

PS: Ainda sobrou choco. Vou ver se encontro umas feijocas e hortelã fresca e faço uma feijocada que faça justiça a este príncipe das marés-baixas . Só não sei se lhe hei-de de espetar com chouriço de Quiaios ou não. Uma questão ponderosa a discutir com o meu gin.