Salmonetes

AZEITONA BRITADA, CENOURA À ALGARVIA, PERCEBES, SALMONETES, TZATZIKI

Acordas um pouco mais tarde do que o planeado. Não faz mal: é sábado e o corpo estava a pedi-las. Antes do duche, pegas na máquina e cortas o cabelo à máquina um. Rotina que te poupa imenso tempo durante a semana com o bónus de disfarçar a calvície (na verdade, não). A chamada fuga para a frente. No spotify já corre «Off You» dos The Breeders quando sais do duche. Pequeno-almoço a correr com fruta que apanhas mais à mão (banana, maçã e uvas). Sais para a rua. Ainda não há demasiados turistas. Aos sábados costuma ser crítico fazer este trajecto entre excursionistas orientais, reformados alemães, espanhóis sempre a lembrar que ninguém fala mais alto do que eles, grupos de despedidas de solteiro(a) sempre coloridos no seu optimismo ingénuo e até, pasmem-se, estes já um pouco mais adiantados, casais coreanos que se fazem acompanhar de fotógrafo profissional para registo da lua-de-mel para a posterioridade (ele há coisas…) e adoram andar por ali a estorvar as pessoas com sessões fotográficas tão altamente elaboradas como melosas e instagrameáveis. A fauna é muito diversificada. Um dia tenho de perder tempo a falar com mais detalhe sobre este assunto. Tal como teremos de abordar, mais tarde ou mais cedo, o que o turismo fez à nossa relação com a comida, mas depois falamos melhor. Adiante.

Passo pelo Asa de Mosca: café, nata (não havia, passou a queque de cenoura de ontem, uma especialidade da casa) e cigarro rápido na esplanada. Desço até à Peixaria do Padrão, «a mais antiga peixaria do país» conforme nos certifica um poster de lulas, polvos e chocos colado na parede ao lado da coleção de vinis de clássicos sanjoaninos do Conjunto António Mafra – entre outros – da extinta Orfeu  e, do outro lado, amparada por cima expositor do peixe uma cascata sanjoanina, cujo crescimento tenho vindo a assistir ano após ano e ainda a incrível coleção de coretos e demais bonecada de barro alusiva aos santos populares. Falemos de peixe que foi o que nos trouxe aqui: carapauzinhos, carapaus, chicharros, sardinha, fanecas, verdes, congro, enguias, pescada fresca de vários calibres, rodovalho, robalo de aviário e robalo do mar, a dourada em todo o seu tédio, polvo, lulas, chocos médios com tinta, raia, ruivos pequenos e ruivos ainda mais pequenos. Vou pelos ruivos menos pequenos que terão como destino uma massada.  Resgato ainda quatro salmonetes e uma mão cheia de percebes. Feita a conversa de circunstância sobre o estado do tempo que teve como rastilho a chuva miudinha, prossigo caminho até ao Bolhão. Chego lá já com um pé atrás. Não gosto do ambiente aos sábados. Abro caminho entre os turistas que se passeiam de copo de vinho na mão e tiram fotografias a tudo e a mais a alguma coisa. È um ambiente esquisito para mercado de frescos. Parece mais uma taberna. O que não seria mau, o problema é como escolher hortaliças com um casal holandês, de meia idade, a fazer de guarda de honra com um copo de vinho branco em riste.  O raide, por isso, tem de ser rápido: na falta de broa de Valongo que já não havia, comprei uma broa milho/trigo/centeio cozida sobre folha de couve (antecipo o veredicto: um bom pão mas uma má broa, a broa tem de ter uma carapaça dura), compro ainda azeitona britada do Algarve na minha azeitoneira do costume e, nas hortaliças, relativamente preservadas da curiosidade turística, compro tomates coração de boi e uma alface. Saio dali o mais rapidamente possível a pensar que aqueles víveres que irei consumir de seguida serão dos mais fotografados, escrutinados, apontados. Estes tomates, esta “broa” e estas azeitonas devem constar no álbum de férias de muitos camones. Será que a crença dos velhos índios sobre a fotografia lhes roubar a alma também se aplica aqui? Será que estas azeitonas se arriscam a perder uma parte da alma? Sinto que violaram a minha intimidade. Ninguém deveria ter de comer adereços de postais turísticos.

Chegas a casa e, de forma muito rápida, pões a magia em marcha: sacrificas as cabeças dos salmonetes de forma a caberem dentro do cesto de bambu onde serão cozinhados a vapor (comprei por 8€ este conjunto num supermercado chinês na baixa e recomendo), no cesto de baixo instalas as percebes que serão cozinhadas em simultâneo. Cinco minutos e já está (constato, não sem alguma consternação, que para os salmonetes teriam bastado quatro minutos, mas enfim, é a vida). Sal de Aveiro (enquanto há), limão e salsa é companhia mais do que suficiente para elevar o sabor delicado deste pequeno peixe que se alimenta, sobretudo, de pequenos crustáceos e moluscos. Sobre as percebes a expectativa é baixa. Pequenas, magras, nota-se que foram apanhadas um pouco à toa numa labacheira qualquer Mas nada a fazer. Para quem já teve as percebes apanhadas pelo Júlio ou para quem, um dia, num fim de tarde chuviscoso foi rei em Vila do Bispo, tudo lhe fica aquém no que diz respeito a esta dádiva das marés. É como se as verdadeiras percebes tivessem ficado fechadas no mundo inteligível das memórias gastronómicas e toda e qualquer outra percebe que nos venha a cair no prato não passasse de uma pálida e imperfeita sombra da percebe em si. Enfim, as coisas são como são e, como de alguma forma, todas as pobres percebes que testamos desde de então participam de forma degradada da percebe ideal, somos capazes de gerar dentro de nós uma reminiscência dessa experiência original, única e definitiva. O apetite deu-me para isto e nem me correu mal porque o gosto do salmonete e das percebes, de alguma forma, fazem pandã. Há por ali afinidades insuspeitas. Adiante! A composição foi guarnecida pelas azeitonas britadas do Algarve, mas desta vez, dada a pressa, acabei por não lhes dar o acabamento merecido. Deveria lhes ter dado um banho para aliviar a tensão da salmoura e tê-las vestido com um fio de azeite, raspas de laranja, malagueta picada, um dente de alho triturado e umas folhas de orégãos e tomilho fresco. Só que não, não havia tempo para deixar apurar e comeram-se mesmo assim. Às vezes temos de nos conceder a nós próprios estes atos de filistinismo. Ao fundo do frigorífico fui resgatar grão-de-bico que tinha ficado a marinar no molho picante de conserva de cavala (dica da semana: reaproveitar, sempre que possível e sem pudor, os sucos das conservas de qualidade que, muitas vezes, valem mais que o próprio objeto de conservação propriamente dito). Como no fundo do frigorífico (que é uma espécie de mala de Sport Billy) encontrei um touco de pepino a ameaçar ir desta para melhor, iniciei de imediato as manobras de reanimação segundo a técnica Tzatziki: ralei-o vigorosamente e, uma vez, retirado o excesso de água, juntei dois dentes de alho assado que guardo em azeite para estas ocasiões especiais, iogurte grego (do bom e apesar de industrial, genuíno: Mevgal. À venda numa grande superfície cujo nome vou omitir a não ser que se ofereçam como sponsors), pimenta preta moída na hora, um toque de uma pasta caseira de malagueta (nota mental: tenho de escrever um dia destes sobre os mistérios da malagueta), salsa picada muito fina, aneto (infelizmente seco, a vida é dura…), sal de Aveiro (enquanto há) e limão. Na mesma expedição ao fundo do frigorífico recupero as cenouras à algarvia que vou fazendo e armazenando em azeite para ir consumindo durante a canícula. Por fim, um cornichon polaco porque era preciso algum ácido para contrabalançar o expectro doce de quase todos estes petiscos. O acompanhamento alcoólico fez-se a dois tempos, com uma litrosa servida em copos lambreta durante o processo e a refeição foi acompanhada por um vinho biológico branco da Beira Interior, mas rotulado por uma empresa de Cascais. Rótulo original e vinho francamente mau. Em síntese, um vinho a evitar como todo e qualquer vinho de escritório, que é um terroir muito específico  onde todos estes vinhos são produzidos, isto é, comprados, rotulados e expedidos. Nem o facto de ser biológico me serviu para compensar aquela parte de mim que aspira à redenção. Sobremesa arrumada com uma fatia de melancia, um café, um shot de whisky corrente e um cigarro  Marlboro (os vícios, ao contrário das virtudes, devem ser cultivados apesar de domesticados). Entretanto, apoiado no meu cigarro, observo pela janela os gatos que vêm averiguar se há sobras enquanto faço a digestão. Ah! A banda sonora ficou-se mesmo pelo álbum de «Last Splash» dos The Breeders que teve a duração e o espírito perfeitos para a refeição e, para além disso, ninguém diz não à Kim Deal.